A Transição Clínica
A saúde está a tornar-se pessoal, mas o sistema não foi desenhado para isso.
Durante décadas, a medicina tratou populações. Protocolos pensados para o doente médio, aplicados a milhões de pessoas reais que nunca foram médias. Esse modelo está a chegar ao fim. As terapêuticas são cada vez mais dirigidas, os dados de saúde cada vez mais individuais e os doentes cada vez mais exigentes com o próprio acompanhamento.
Mas a personalização tem um custo que poucos discutem: exige olhar para cada pessoa individualmente, com frequência e ao longo do tempo. E o sistema de saúde não tem como o fazer. Os hospitais estão sobrecarregados e foram pensados para situações de urgência, os centros de saúde gerem agendas impossíveis e o tempo do médico é o recurso mais escasso do sistema.
Entre uma consulta e a seguinte, o doente crónico está entregue a si próprio. É nesse intervalo que a adesão se perde, que os sinais de descompensação passam despercebidos e que as pequenas dúvidas se tornam em maus resultados.
Há uma estrutura de saúde que já está no sítio certo.
Existe uma rede de proximidade com presença em cada bairro e em cada vila deste país. Com profissionais de saúde qualificados, horários alargados e um nível de confiança que nenhuma outra instituição de saúde tem. O cidadão comum visita-a com uma frequência que nenhum médico consegue igualar.
A farmácia comunitária vê o doente crónico todos os meses. Vê a terapêutica que ele levanta e a que deixa de levantar. Ouve as dúvidas que ele não fez ao médico. Está posicionada, sem que o sistema o tenha planeado, exatamente no intervalo onde a saúde personalizada precisa de acontecer.
Não falta capacidade, mas estrutura.
O farmacêutico comunitário tem formação clínica sólida e subaproveitada. O que a farmácia nunca teve foi o que qualquer ato clínico exige para valer como tal: método, registo e evidência.
Um conselho dado ao balcão, por melhor que seja, desaparece no momento em que é dado. Não fica registado, não é seguido e não se mede. A diferença entre um balcão prestável e um hub clínico não está na boa vontade. Está na estrutura: protocolos que definem o que avaliar e quando referenciar, registo que transforma cada intervenção em dado e evidência que demonstra o valor gerado.
É a essa mudança que chamamos transição clínica: a passagem da farmácia como ponto de dispensa para a farmácia como estrutura de acompanhamento em saúde. Não substitui o médico. Ocupa o espaço que sempre esteve vazio entre as consultas.
Esta transição já começou.
Canadá, Reino Unido, França e Suíça já integraram serviços clínicos na farmácia comunitária, com resultados documentados em acesso, deteção precoce e controlo de doença. Portugal reúne condições raras para fazer o mesmo: uma rede densa, profissionais qualificados e utentes que confiam.
Esta transição vai fazer-se ao ritmo de quem a estruturar. A Growth HealthCare trabalha com as farmácias e os parceiros que a estão a construir, com método, formação, registo e evidência.
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